Estação seca: por que as queimadas disparam entre agosto e outubro e o que diz a nova política de manejo do fogo

Estação seca: por que as queimadas disparam entre agosto e outubro e o que diz a nova política de manejo do fogo

O céu alaranjado ao entardecer, o cheiro de fumaça e a garganta seca voltam a marcar o cotidiano de milhões de brasileiros nesta época do ano. Entre agosto e outubro, o auge da estação seca no Cerrado, na Amazônia e no Pantanal coincide com a maior concentração de focos de calor detectados por satélite. Especialistas lembram que, apesar das condições climáticas favoráveis ao fogo, a maior parte dos incêndios tem origem humana — e, portanto, poderia ser evitada.

Imagem de satélite mostrando fumaça de queimadas sobre o território brasileiro
Fumaça das queimadas pode se espalhar por milhares de quilômetros — Imagem: NASA Goddard Space Flight Center from Gr / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

Resumo rápido

  • Pico: agosto a outubro, auge da estação seca.
  • Origem: majoritariamente humana (manejo agropecuário, lixo, desmatamento, crimes).
  • Nova lei: Política Nacional de Manejo Integrado do Fogo (Lei 14.944/2024).
  • Saúde: fumaça e umidade abaixo de 30% agravam doenças respiratórias.
  • Denúncia: Bombeiros (193) e Ibama (0800 061 8080).

Por que o fogo se espalha tão rápido nesta época

No Centro-Oeste e em boa parte do Sudeste, a estação seca vai de maio a setembro, com seu ápice entre agosto e setembro. A umidade relativa do ar frequentemente cai abaixo de 30% — nível considerado de atenção pela Organização Mundial da Saúde — e, em alguns dias, abaixo de 12%, patamar de emergência. A vegetação seca funciona como combustível, e os ventos espalham as chamas. Anos com El Niño e temperaturas acima da média agravam o cenário, como ocorreu em 2024, quando o país registrou uma das piores temporadas de incêndios das últimas décadas, com grandes áreas queimadas na Amazônia, no Pantanal e no Cerrado, segundo dados do MapBiomas e do Inpe.

O Cerrado e o fogo: uma relação complexa

O Cerrado é um bioma que evoluiu com a presença do fogo natural, geralmente provocado por raios no início da estação chuvosa. Muitas espécies têm cascas grossas e estruturas subterrâneas que permitem rebrotar após queimadas. O problema é o fogo fora de época, em grande escala e com alta frequência, provocado pela ação humana, que degrada a vegetação, empobrece o solo, reduz a infiltração de água e ameaça nascentes que abastecem grandes bacias hidrográficas do país.

Na Amazônia e no Pantanal, a situação é diferente: a floresta amazônica não é adaptada ao fogo, e incêndios costumam estar associados ao desmatamento. No Pantanal, secas extremas nos últimos anos deixaram áreas normalmente alagadas vulneráveis às chamas.

A nova política de manejo do fogo

Em 2024, o Brasil aprovou a Lei 14.944, que instituiu a Política Nacional de Manejo Integrado do Fogo. A norma muda a abordagem, antes centrada quase só na proibição e no combate, para incluir o uso planejado do fogo em situações específicas, como as queimas prescritas feitas por brigadas em unidades de conservação e territórios indígenas no início da estação seca, que reduzem o material combustível e evitam grandes incêndios no auge da estiagem. A lei também prevê responsabilização por incêndios criminosos, integração entre órgãos federais, estaduais e municipais e a valorização de conhecimentos tradicionais de povos indígenas e comunidades locais.

Tipo de uso do fogoSituação na política
Queima prescrita (planejada por órgãos e brigadas)Permitida, com planejamento técnico
Queima controlada em propriedades ruraisDepende de autorização do órgão ambiental competente
Uso tradicional por povos indígenas e comunidadesReconhecido, com regras próprias
Incêndio criminoso ou sem autorizaçãoProibido e sujeito a sanções

Impactos na saúde

A fumaça das queimadas contém partículas finas (PM2,5) capazes de penetrar profundamente nos pulmões e na corrente sanguínea. Estudos associam a exposição a aumento de internações por asma, bronquite, pneumonia e doenças cardiovasculares. Crianças, idosos, gestantes e pessoas com doenças respiratórias ou cardíacas são os mais vulneráveis. Em períodos críticos, a fumaça pode viajar milhares de quilômetros e afetar cidades distantes dos focos.

Como se proteger

  • Beba água ao longo de todo o dia, mesmo sem sede.
  • Evite atividades físicas ao ar livre entre 10h e 17h — corredores devem preferir o início da manhã ou ambientes fechados. Veja dicas no nosso guia de corrida de rua.
  • Use umidificadores, bacias com água ou toalhas úmidas nos ambientes.
  • Lave o nariz com soro fisiológico e use colírio lubrificante, se orientado.
  • Em dias de fumaça intensa, mantenha portas e janelas fechadas.
  • Procure atendimento em caso de falta de ar, chiado no peito ou dor torácica.

O que cada um pode fazer

  1. Não queime lixo, folhas ou restos de poda.
  2. Não jogue bitucas de cigarro em margens de estradas.
  3. Não solte balões — prática criminosa que também é comum nas festas juninas.
  4. Denuncie focos de incêndio ao 193 e crimes ambientais ao Ibama.
  5. Em propriedades rurais, mantenha aceiros e siga as regras de autorização para qualquer uso do fogo.

O combate às queimadas também passa por soluções estruturais, como o fortalecimento das brigadas, o monitoramento por satélite e o controle do desmatamento — temas que estiveram no centro das discussões da COP30, em Belém.

Perguntas frequentes

Por que as queimadas aumentam entre agosto e outubro?

Porque esse período coincide com o auge da estação seca no Centro-Oeste, no Sudeste e em parte do Norte, com baixa umidade do ar, vegetação seca e ventos, condições que facilitam a propagação do fogo.

A maior parte das queimadas é natural?

Não. A grande maioria dos focos tem origem humana: uso do fogo para limpeza de pastagens e áreas agrícolas, queima de lixo, desmatamento e incêndios criminosos. Raios causam incêndios naturais, sobretudo no início da estação chuvosa.

Como denunciar uma queimada?

Em caso de fogo em andamento, ligue para o Corpo de Bombeiros (193). Crimes ambientais podem ser denunciados ao Ibama (Linha Verde, 0800 061 8080), às polícias ambientais e aos órgãos estaduais de meio ambiente.

Queimar lixo no quintal é crime?

A queima de resíduos a céu aberto é proibida pela legislação ambiental e pode gerar multa, além de ser uma das causas de incêndios em áreas urbanas e rurais.

Como proteger a saúde durante períodos de fumaça e ar seco?

Beba bastante água, evite exercícios ao ar livre nos horários mais secos, mantenha ambientes úmidos, use soro fisiológico no nariz e nos olhos e procure atendimento em caso de falta de ar, especialmente crianças, idosos e pessoas com doenças respiratórias.

Fontes consultadas

Larissa Moura

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *