Da COP30 à COP31: o que ficou da conferência do clima em Belém e o que está em jogo na próxima rodada

Da COP30 à COP31: o que ficou da conferência do clima em Belém e o que está em jogo na próxima rodada

Quase um ano depois de Belém receber a primeira conferência do clima da ONU realizada na Amazônia, o balanço da COP30 divide especialistas. A conferência, que reuniu delegações de quase 200 países em novembro de 2025, terminou com avanços em adaptação climática, financiamento e proteção de florestas, mas sem um compromisso formal para abandonar os combustíveis fósseis. Com a COP31 marcada para novembro, na Turquia, as negociações voltam a ganhar ritmo — e o legado de Belém entra na pauta.

Liderança indígena com cocar em manifestação durante a COP30 em Belém
Participação de povos indígenas foi uma das marcas da conferência realizada na Amazônia — Imagem: Xuthoria / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

Resumo rápido

  • COP30: Belém (PA), novembro de 2025, primeira COP na Amazônia.
  • Principais resultados: pacote do “Mutirão”, meta de ampliar o financiamento para adaptação, indicadores de adaptação e mecanismo de transição justa.
  • TFFF: fundo para remunerar a conservação de florestas tropicais foi lançado.
  • Lacuna: sem roteiro formal para a saída dos combustíveis fósseis.
  • COP31: Antália (Turquia), novembro de 2026, com presidência australiana das negociações.

Uma COP na Amazônia

A escolha de Belém teve forte carga simbólica: levar os negociadores ao coração da maior floresta tropical do mundo e dar visibilidade a povos indígenas, comunidades tradicionais e populações urbanas amazônicas. A conferência teve uma das maiores participações indígenas da história das COPs, com marchas, debates e a presença de lideranças nas zonas de negociação. A cidade recebeu investimentos em infraestrutura, mobilidade e saneamento, embora parte das obras tenha sido criticada por atrasos e impactos locais.

O que foi decidido

TemaResultado
Pacote político (“Mutirão Global”)Decisão de cobertura com chamado à aceleração da ação climática e à implementação do Acordo de Paris
AdaptaçãoChamado para ampliar significativamente o financiamento para adaptação até 2035 e adoção de indicadores da Meta Global de Adaptação
Transição justaCriação de um mecanismo para apoiar trabalhadores e comunidades afetados pela transição energética
FlorestasLançamento do Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF), com anúncios de aportes de países
Combustíveis fósseisSem roteiro formal no texto; presidência anunciou iniciativas paralelas

O Fundo Florestas Tropicais para Sempre

A principal aposta brasileira foi o TFFF, um fundo de investimento que pretende gerar retorno financeiro e usar parte dos rendimentos para pagar países com florestas tropicais por hectare mantido em pé, com penalidades por desmatamento. Uma parcela dos recursos deve ser destinada diretamente a povos indígenas e comunidades locais. O fundo foi lançado com anúncios de aportes de países como Noruega, Brasil, Indonésia e outros, mas ainda abaixo da meta de capitalização pública pretendida. Especialistas apontam que o sucesso depende de atrair investidores privados em grande escala.

A frustração com os fósseis

O ponto mais sensível foi a ausência, no texto final, de um roteiro para a “transição para longe dos combustíveis fósseis”, expressão acordada na COP28, em Dubai. Dezenas de países, especialmente europeus, latino-americanos e pequenos Estados insulares, defenderam um cronograma, mas enfrentaram a resistência de grandes produtores de petróleo e de outros países. A presidência brasileira anunciou que conduziria processos paralelos sobre transição energética e sobre o fim do desmatamento, com resultados a serem apresentados nas conferências seguintes. Críticos também apontaram contradições da própria política energética brasileira, como a expansão da exploração de petróleo.

O que está em jogo na COP31

A COP31 será realizada em Antália, na Turquia, com a Austrália na presidência das negociações e eventos preparatórios em países do Pacífico — um arranjo inédito para resolver a disputa entre as duas candidaturas. Entre os temas centrais estão:

  • a implementação da meta de financiamento climático acordada na COP29, em Baku;
  • o acompanhamento dos compromissos de adaptação assumidos em Belém;
  • a atualização das metas nacionais de redução de emissões (NDCs), muitas das quais foram consideradas insuficientes para limitar o aquecimento a 1,5 °C;
  • os desdobramentos dos roteiros sobre combustíveis fósseis e desmatamento.

Por que isso importa para o Brasil

O Brasil é ao mesmo tempo um dos países mais expostos aos efeitos da crise climática — com secas históricas na Amazônia, enchentes no Sul e ondas de calor — e um ator decisivo para o equilíbrio do clima global, por abrigar a maior parte da Amazônia. A redução do desmatamento e das queimadas é a principal contribuição brasileira para cortar emissões. Na agricultura, práticas de baixo carbono e a rastreabilidade da cadeia da carne ganham importância diante das exigências de mercados compradores. No plano diplomático, o país articula a pauta climática em fóruns como o BRICS.

Balanço

Para parte dos analistas, a COP30 cumpriu o papel de manter o multilateralismo climático funcionando em um cenário geopolítico adverso, com a saída dos Estados Unidos do Acordo de Paris e conflitos internacionais. Para outros, perdeu a oportunidade de transformar o simbolismo amazônico em compromissos mais ambiciosos. Consenso há em um ponto: a década atual é decisiva, e a distância entre as promessas e as emissões reais segue grande.

Perguntas frequentes

Quando e onde aconteceu a COP30?

A COP30, 30ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, foi realizada em Belém, no Pará, em novembro de 2025. Foi a primeira COP sediada na Amazônia.

Quais foram os principais resultados da COP30?

Entre os principais resultados estão a decisão conhecida como “Mutirão Global”, o chamado para ampliar significativamente o financiamento para adaptação até 2035, a adoção de indicadores para a Meta Global de Adaptação, um mecanismo sobre transição justa e o lançamento do Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF).

O que é o TFFF?

O Fundo Florestas Tropicais para Sempre é um mecanismo proposto pelo Brasil para remunerar países que mantêm suas florestas tropicais em pé, com pagamentos por hectare conservado. O fundo foi lançado em Belém com anúncios de aportes de diversos países.

A COP30 aprovou o fim dos combustíveis fósseis?

Não. O texto final não incluiu um roteiro formal para a transição para longe dos combustíveis fósseis, apesar da pressão de dezenas de países. A presidência brasileira anunciou que conduziria iniciativas paralelas sobre o tema.

Onde será a COP31?

A COP31 será realizada em novembro de 2026 em Antália, na Turquia, com a Austrália na presidência das negociações, em um arranjo inédito acordado entre os dois países.

Fontes consultadas

Fernanda Oliveira

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *