Opinião: educação financeira precisa sair do papel e chegar de verdade às salas de aula

Pergunte a um adolescente o que são juros compostos e é provável que ele não saiba responder. Pergunte como apostar em um jogo de futebol pelo celular e a resposta virá em segundos. O contraste resume um dos desafios mais urgentes da educação brasileira: preparar os jovens para lidar com dinheiro em um mundo de crédito instantâneo, compras com um toque e promessas de enriquecimento rápido.

Em resumo
- A maioria das famílias brasileiras tem algum tipo de dívida, segundo pesquisas da CNC.
- Educação financeira já está prevista na BNCC, mas pouco chega à prática.
- Apostas on-line e crédito fácil ampliaram os riscos para jovens.
- Formar professores e usar exemplos do cotidiano é essencial.
- Escola, família e instituições financeiras têm responsabilidades.
Um país que aprende sobre dinheiro na prática — e da pior forma
Pesquisas mensais da Confederação Nacional do Comércio mostram que cerca de três em cada quatro famílias brasileiras têm algum tipo de dívida, com o cartão de crédito à frente. Uma parcela significativa está inadimplente. Não se trata apenas de falta de conhecimento: renda baixa, desemprego e juros altos pesam muito. Mas não é possível ignorar que milhões de pessoas tomam decisões sem entender o custo real do crédito rotativo, do parcelamento com juros ou de um empréstimo consignado.
Nos últimos anos, somou-se a esse cenário a explosão das apostas on-line. Dados do Banco Central indicaram transferências bilionárias para empresas de apostas, inclusive por beneficiários de programas sociais. Jovens são alvo preferencial da publicidade, muitas vezes feita por influenciadores.
O que já está previsto
A Base Nacional Comum Curricular incluiu a educação financeira como tema transversal, a ser trabalhado em disciplinas como matemática. A Estratégia Nacional de Educação Financeira promove ações há mais de uma década. O problema é que, na maior parte das escolas, o tema aparece de forma pontual — uma palestra, um projeto — sem continuidade, sem material adequado e sem formação específica para os professores, que já enfrentam sobrecarga, como mostramos na reportagem sobre o Dia do Professor.
O que deveria ser ensinado
| Etapa | Conteúdos essenciais |
|---|---|
| Anos iniciais | Valor do dinheiro, escolhas, poupar para um objetivo |
| Anos finais | Orçamento, porcentagem, juros simples, consumo consciente, publicidade |
| Ensino médio | Juros compostos, crédito e cartão, reserva de emergência, investimentos, impostos, golpes e apostas |
Programas como o Pé-de-Meia, que depositam dinheiro em poupança para estudantes do ensino médio, são uma oportunidade concreta: é possível usar a própria experiência do aluno para ensinar planejamento, metas e os riscos de gastar por impulso.
Não é só responsabilidade da escola
Famílias têm papel decisivo. Conversar sobre preços, envolver as crianças nas compras e mostrar como se organiza o orçamento doméstico ensina mais do que qualquer apostila. Instituições financeiras também precisam fazer sua parte, com informações claras sobre custos e limites responsáveis de crédito. E o poder público deve regular com firmeza a publicidade de apostas e proteger os mais vulneráveis — tema que dialoga com o ECA Digital.
Um investimento com retorno garantido
Ensinar finanças não vai, sozinho, resolver a desigualdade ou o endividamento. Mas um jovem que entende juros compostos tem mais chance de fugir do rotativo do cartão, de comparar ofertas de crédito, de reconhecer um golpe e de começar a poupar cedo. Para quem já está endividado, é importante conhecer os caminhos de renegociação previstos na lei do superendividamento.
Defendemos que a educação financeira deixe de ser apenas um tópico no documento curricular e se torne prática regular, com material de qualidade, professores formados e avaliação de resultados. É um investimento de baixo custo e alto retorno — para cada estudante e para o país.
Os artigos de opinião refletem a posição de seus autores e da linha editorial da Folha do Centro.
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Perguntas frequentes
A educação financeira é obrigatória nas escolas brasileiras?
A Base Nacional Comum Curricular (BNCC), homologada em 2017 e 2018, inclui a educação financeira como tema contemporâneo transversal, que deve ser trabalhado nas diferentes disciplinas. Não há, porém, uma disciplina específica obrigatória em todo o país.
O que é a Estratégia Nacional de Educação Financeira?
É uma política pública, coordenada por órgãos como o Banco Central, a CVM e o Ministério da Educação, que promove ações de educação financeira, como a Semana ENEF e programas em escolas.
O que um jovem deveria aprender sobre dinheiro na escola?
Orçamento pessoal, diferença entre necessidade e desejo, juros simples e compostos, funcionamento do crédito e do cartão, reserva de emergência, noções de investimento, direitos do consumidor e riscos de golpes e apostas.
Educação financeira resolve o endividamento?
Sozinha, não. Renda, emprego, custo do crédito e práticas das instituições financeiras também pesam. Mas pessoas com mais conhecimento financeiro tendem a comparar custos, planejar melhor e evitar armadilhas.
Como os pais podem ensinar finanças em casa?
Envolvendo os filhos no planejamento de compras, dando pequenas mesadas com metas, conversando sobre preços e juros e mostrando que decisões financeiras têm consequências.